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In Spirit: Ritual Interno

Written by

Mariette Raina
July 30th, 2017

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No capítulo 29 da Tantraloka, Abhinavagupta descreve o supremo lingam como o lingam interno (sloka 170)

Mês passado falamos sobre o ritual como aparece na estrutura cultural. Toda cultura tem sua própria forma de devoção. Mas o que significa devoção num nível mais profundo, quando não há necessidade de apaziguar as divindades, de pedir um favor, ou de glorificar uma imagem divina? O que significa o ritual para além da sua limitação religiosa?

Em março eu pego a estrada para Mysore para encontrar com Boris Marjanovic, um renomado especialista dos Tantras e Shivaismo Caxemiriano – eu espero poder estudar os rituais e as visões de Abhinavagupta sob sua tutela. Abhinavagupta, um mestre dos Tantras e filósofo do século XI de quem inúmeras teorias e escritos, que constituem ainda hoje trabalho seminal, descrevem rituais internos em sua Tantraloka como sendo muito superior à sua expressão externa: seus gestos não produzem nada se o movimento interno, refletindo uma compreensão clara, estiver ausente. Sob a tradução e as explicações esclarecedoras de Boris, as seguintes slokas são reveladas:

Louvando a deusa, o praticante deve recolher as flores do ritual, kusuba. Ele deve colecioná-las mentalmente, encontrando significado dentro de si mesmo, no lugar onde ele encontra sua natureza essencial, onde reside o estado de deleite, chamatkar.

As flores são portanto oferecidas, sempre mentalmente, num inestimável vaso que transborda um rio de alegria continuamente, a felicidade mental. A Deusa é venerada no templo do Deus, que é o corpo.

Flor, vasilha, rio, templo, todos os elementos do ritual estão presentes, entretanto estão integrados na sua forma imanifesta. Para o praticante que está estabelecido nessa consciência, o ritual não começa nem acaba –  não é apenas interno, mas é também contínuo, manifestado num estado de constante alegria (anutara) onde o ritual é o ato de perceber a Realidade.

Boris continua: a Consciência existe, momento a momento, e não pode não ser, pois tudo que está debaixo de nossos olhos depende do movimento da criação. Não é uma questão de criar um estado, mas ao contrário, é parar a fim de dar o tempo necessário para que a percepção se assente dentro de mim.

Quando a dinâmica em relação a algo se foi, então há percepção pura. Todos os rituais se extendem para essa experiência de retorno ao Eu, abandonando a dinâmica intencional, independentemente dos desvios externos. Mesmo que os praticantes não sejam sempre conscientes, é essa a única experiência procurada. A oferenda final torna-se a oferenda de toda dinâmica em direção a um objeto – a oferenda de si mesmo.

Máscara usada durante rituais e procissões. Kali é a destruidora. No seu sentido metafísico, a deusa libera o praticante de seu ego, cortando sua cabeça.

Inclinação devocional é inerente ao ser humano. Em todos os tempos e culturas, o homem buscou nutrir seu ser, investigar a Realidade e o Self. Nessa jornada, o sentimento de agradecer a algo superior inevitavelmente se impõe e é expressado na forma devocional do ritual. O mundo ocidental moderno – uma cultura de massa e globalização – abandonou esse aspecto da vida. Entretanto, hoje mais do que nunca, o ser humano moderno está em busca de sentido e desapego, alimento espiritual. Riqueza material, relacionamentos, uma carreira, nunca preencherão o espaço de intimidade onde o eu foi colocado na sua origem. Aquele que se conecta com esse espaço com frequência mostra uma sensação de retorno à casa. Os místicos por sua vez, usam a imagem de um ser sedento que mata finalmente sua sede sem limite na fonte.

Se o ritual normalmente acontece num contexto religioso, também precisa ser visto mais além. Ele toca o espaço místico, quer seja expressado na forma Cristã, Judaica (Cabala), Hindu (Tantra) ou Muçulmana (Sufismo). A religião é organizada a partir de um contexto social, enquanto o misticismo, que está no coração, conecta o ser com o absoluto, ao princípio que é, antes do ser como corpo e espírito. É um contato direto e não-dual. Nesse momento, o ritual tem um sentido interno, onde os elementos externos, que podem estar presentes às vezes, derivam suas expressões do entendimento de que a oferta em última instância, é a imagem de si mesmo. Não tem movimento “em direção a”, mas um movimento através de”. Não tem mais espera, sou movido pela evidência. Para o místico, cada momento é um ato ritual, porque cada momento é uma oportunidade de morrer para si mesmo, de se desvanecer frente à Realidade e deixar que ela se expresse completamente.

No tapete, as pernas, símbolo de dinâmicas intencionais, são cruzadas para significar abdicação. A mão direita colocada na mão esquerda, evoca a mesma renúncia de qualquer pretensão de fazer, pensar, adicionar … Obviamente dar-se ao momento.

As práticas relacionadas com a abordagem mística são uma forma de atualizar esse sentimento e assim participar no espaço ritual. Yoga na sua forma interna não é uma prática de ginástica física que te permite ser mais flexível, mais espiritual, mais saudável. Yoga é uma exploração que investiga diretamente a natureza do ser através da escuta sem cálculos. Essa exploração interna não se limita ao yoga, mas está presente na prática de mantras, ou entre os dervixes giratórios, cálculos da cabala e nas orações místicas do yogi, dos cristãos, dos sufis ou de quem, sem a necessidade de um nome, toca a ressonância do Absoluto. O ritual não pode ser circuncidado ou definido. Existe e é justificado em diferentes níveis. Em seu coração, é a exploração do ser, é a honesta investigação daquele que vê sem comentar, sem mudar a situação para se arranjar, um movimento através do qual o ego não pode se manter. Quando esse espaço é tocado, tem apenas ritual na forma de gratidão. O ser está ali apenas para reverenciar e agradecer, gratidão em sua forma arquetípica de dinâmica da Consciência, que é refletida no seu próprio espelho.

Representação Moderna da ausência do ego “Coeur Rouge” | Nathalie Delay

 

“Parece para mim importante expressar, de toda maneira, beleza, para provocar uma emoção de beleza que ultrapassa qualquer necessidade de usar palavras para comentar”.

Não coloque o absoluto, a essência, numa caixa. É vastidão total – o infinito total.

Então o melhor que você pode fazer é aceitar perder todos os seus objetos – deixe-os dissolver nessa essência, nesse espaço total.

E o último objeto que você precisa dissolver é você mesmo. A imagem de você mesmo. Deixe-a também dissolver no espaço. E aceite perder cada objeto – qualquer coisa que pertença a você – então você tem acesso à essência.

Um agradecimento especial à Stéphane Desmeules pelas fotos de Boris, e finalmente à Boris Majianovich por abrir sua porta para nós e dividir seu conhecimento com tamanha generosidade. Pela revisão e tradução, minha gratidão a Kweku pelo Inglês, minha avó pelo Francês e Ana Luiza Feres por sua tradução para o Português.

Mariette has a master degree in anthropology from the University of Montreal. She teaches yoga enlined with the philosophy of non dual tantric saivaism from Kasmir. She is regularly travelling to India to follow up her research on esoteric traditions from the Tantras.

Mariette est diplômée d’un master en anthropologie de l’Université de Montréal. Elle enseigne le yoga dans la ligne de la philosophie du sivaisme tantric non-duel du Cachemire. Elle voyage régulièrement en Inde pour poursuivre ses recherches sur les traditions ésotériques des Tantra.

yoginibhuh.com

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