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As cores do ritual na Índia

Written by

Mariette Raina
July 3rd, 2017

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Acabei de voltar de viagem. De certa maneira, parece mais um deslocamento do que um retorno, quase como se meus movimentos se nivelassem cada vez mais,  cada lugar que eu visito no ano traz sua própria neutralidade funcional: não há viagem, e sim vida, desenrolada de um ponto a outro com suas reuniões, encontros e inúmeras possibilidade de investigação da Realidade.

No carro, conto ao meu pai alguns fragmentos da viagem que me surgem aleatoriamente ao longo das estradas parisienses. Mais do que simples fatos, divido com ele minhas reflexões, meu olhar e minhas “anotações” mentais. Suas perguntas me ajudam a recaptular algumas ideias. Nessa viagem, foram os rituais que conheci, em cada passo do meu caminho: as mulheres que vestem os lingams com tilac e flores pela manhã, os homens que se purificam no Ganges, os peregrinos que visitam o Karnataka Joyti Lingam, o encontro com meus amigos indianos, e depois com Boris, um especialista em Abhinavagupta.

Meu pai, que sabe bem que eu não fui criada com nenhuma educação religiosa formal, me pergunta: o que afinal te atrai nessa prática? Mais do que os aspectos festivos, é o ato de oferecer. Eu explico a ele que no ocidente perdemos a noção de agradecimento, a humildade perante aquilo que está além de nós, e acima de tudo, a noção do dever. Nesse mundo contemporâneo, onde os direitos prevalecem, o ser humano pensa que tudo é direito dele, é devido a ele, começando com uma vida fácil e repleta de felicidade. E é aí que está a maior fonte de sofrimento.

O ritual como se manifesta na Índia, já é um tema rico por sua natureza cultural, mas também e sobretudo, pelo seu significado interior e que toca a mais profunda essência do ser, para além do espaço e da geografia. É essa exploração que proponho este mês; uma viagem ao coração do mundo ritual Indiano e além.

Naquela manhã, voltei ao Tulsi Ghat Akhara para cumprimentar meus amigos lutadores pelo final da sua formação. Fui recebida com sorrisos e risadas, e surpresos ao me verem reaparecer, me convidaram para partilhar sua comida e depois acompanhá-los aos ghats para o mergulho habitual. Chegando nos degraus à beira do Ganges, noto um pequeno grupo de homens mais velhos no meio de seu ritual. Goree, um dos lutadores, me convida para participar de uma pequena cerimônia. Depois de alguns minutos entendo que o senhor que fala um pouco de Inglês é realmente seu tio Chacha.

No pequeno grupo de preparação do ritual não faltam risadas e algumas discussões amigáveis. As imagens, Murti, são construídas a partir de argila do Ganges. Inicialmente, um bloco de terra seca é esfarelado e em seguida, misturado com um pouco de água do Ganges e ghee, até que a consistência perfeita permita modelar um lingam com sua Yoni. Ao redor das escadas, cada um se vira para preparar os utensílios para a cerimônia: pratos, lota (pote para derramar a água do Ganges), arroz, flores, doces, temperos em pó, moedas, pratos musicais. As oferendas são produtos comuns de uso diário. Não pode faltar nada. O tio Chacha não para de falar comigo. Goree fica bravo, grita com ele para se apressar  “senão nesse passo, a noite chegará e não estaremos prontos”; rapidamente Chacha se cala, sorrindo timidamente, revelando sua boca desdentada, para retomar a conversa de novo 5 minutos mais tarde.

Dia 21 de fevereiro é o Shivaratri,  festival que celebra o casamento de Shiva e Parvati. O ritual então se eleva a uma outra dimensão. Naquele dia, o ritual é muito mais longo, dura cerca de 4 horas sob um sol escaldante. Muitas pessoas querem participar, as imagens sagradas e as oferendas são muitas, e numa enorme panela é prepada a mistura de amêndoas, especiarias e da famosa “Bang“, numa base de leite. No dia do Shivaratri, todo mundo tem que comer Bang, até mesmo as crianças – essa massa fina muito bem preparada a partir da moagem de folhas de maconha com amêndoas e castanha de caju, em uma pedra plana, por horas -, deixando todos completamente chapados até de manhã. A massa é consumida no final do ritual com o tradicional líquido, fazendo as vezes de prasad (alimento dos deuses) nesse dia de festa.

No final do ritual, o lingam e as oferendas voltam ao Ganges, as pedras são limpas do tilac laranja, argila, grãos de arroz e leite, os utensílios recuperam seus lugares nas sacolas, e em alguns minutos, não há mais nada. Há que se abrir mão das simbólicas imagens, não há um lugar sagrado, apenas o vazio e o retorno ao nada – último gesto ritual.

Na Índia, as vidas mundana e religiosa convivem sem hierarquia e não fazem parte da dicotomia ocidental. No hinduísmo, religião e espiritualidade praticamente não se separam e existem onipresentes em todos os momentos. Como disse uma das primeiras mulheres exploradoras da Índia no início do século 20, que contribuiu para a revelação enriquecedora da cultura indiana: “se você quer erradicar a religião [na Índia] você está cortando o fio da vida” (Alice Boner, 1930).

A cultura indiana é rica e colorida, e nela a prática de rituais não é tão restrita e rígida como é típico na cultura ocidental cristã. Tem uma forma orgânica de sensualidade que estimula todos os sentidos do corpo: o incenso para o olfato, as cores para a vista, o prasad para o paladar, a música para os ouvidos e as oferendas para o toque. O ritual leva você de volta ao corpo, à sensação, e desperta as mais sutis vibrações. As geometrias sagradas ativam a correspondência entre o corpo, o cosmo e o divino. Ensinando e investigando o conhecimento essencial da Realidade.

Obrigad a  Ana Luiza Feres para a tradução.

Mariette has a master degree in anthropology from the University of Montreal. She teaches yoga enlined with the philosophy of non dual tantric saivaism from Kasmir. She is regularly travelling to India to follow up her research on esoteric traditions from the Tantras.

Mariette est diplômée d’un master en anthropologie de l’Université de Montréal. Elle enseigne le yoga dans la ligne de la philosophie du sivaisme tantric non-duel du Cachemire. Elle voyage régulièrement en Inde pour poursuivre ses recherches sur les traditions ésotériques des Tantra.

yoginibhuh.com

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